terça-feira, 14 de junho de 2011

Em sua ausência

"- Não, não temos ninguém para atendê-la."
"- Como assim?" - eu disse. 
"- Nossos assistentes sociais estão participando de um curso na UNB, juntamente com todos os técnicos, desde segunda-feira. Se quiserem, podem voltar amanhã. Talvez tenha alguém para atender."


Segunda-feira, dia 13.06.2011, dia de Santo Antônio, padroeiro dos pobres e oprimidos, dos que amam e dos que desejam ser amados... Saí do trabalho e fui me encontrar com Sabrina na estação do metrô. Sabrina tem uma doença degenerativa conhecida como Ataxia de Friedreich e, desde os 15 anos - hoje tem 26 - enfrenta um processo de perda de movimentos e coordenação motora, que foi iniciado nos membros inferiores e hoje atinge praticamente todo seu corpo, permanecendo intacta sua capacidade intelectual.

Nosso encontro não era à toa. Há algum tempo, Sabrina deseja e precisa de alguma atividade terapêutica e laboral. Por isso, combinamos de irmos juntas ao CRAS - Centro de Referência de Assistência Social de Taguatinga, para que ela pudesse preencher sua inscrição na fila de espera da APAED - Associação de Pais e Amigos de Excepcionais e Deficientes.

Sabrina não tem força motora suficiente para dirigir sua própria cadeira, levantar-se ou sentar-se. Precisa de ajuda para todos os movimentos. Sair de casa é um desafio. Sabrina saiu da Samambaia, foi até o metrô de Águas Claras, onde eu a peguei e levei para o CRAS de Taguatinga, para ouvir que não tinha nenhum funcionário para atendê-la. 


Mas Sabrina não foi a única. A atendente nos sugeriu que voltássemos só na segunda, porque muitas pessoas já tinham procurado atendimento sem êxito e voltariam no dia seguinte. O público alvo do CRAS são pessoas em situação de alta vulnerabilidade: pessoas com deficiência, desabrigados, crianças em situação de risco, mulheres violentadas e, obviamente, em sua maioria, pessoas de baixa renda, que contam apenas com este serviço para ter o seu mínimo de dignidade resguardada. 
"Em sua ausência", de Barthi Kher, 2010.
Foto: Adriana Monteiro da Silva


O Ministério do Desenvolvimento Social define o CRAS como "o ponto focal de acesso e promoção dos direitos socioassistenciais no território" e é por isso que o CRAS tem obrigatoriedade, de acordo com o Programa de Atenção Integral à Família, de horário de funcionamento mínimo de 8 horas e no referido Programa está assim definido: "Somente é considerado que o CRAS está em funcionamento por 8 horas se houver a presença da equipe de referência completa durante este período."

Saí de lá lembrando de uma imagem que vi na exposição da Índia no CCBB de Brasília. "Em sua ausência" é uma instalação com cadeiras de madeira vazias e alguns suntuosos saris. O sari é um traje típico das mulheres indianas que envolve todo corpo. Para confeccioná-los são utilizados cerca de 6 metros de pano. Seus tecidos são suntuosos e são um misto cruel e estapafúrdio de opressão e sensualidade. As cadeiras vazias respresentam a invisibilidade da mulher na sociedade indiana. 

Fiquei, então, pensando em nossos e nossas invisíveis e nos nossos saris - não menos suntuosos e não menos opressores... a violência da invisibilidade... silenciosa, mortificante e sem vestígios de sangue aparentes.  

Até quando?

Adriana Monteiro da Silva