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| Ana Luísa Foto de Lorena Lopes |
Há anos escuto chamarem minha filha de anjo. Confesso que por muito tempo gostei. Toda mãe acha seu filho um anjo e eu não sou diferente. Acho meus filhos as crianças mais lindas e bem educadas do mundo e embora ache muito clichê dizer, afirmo pela milésima vez que eles são presentes dos céus em minha vida.
Mas, há algum tempo percebo e tenho certeza que o preconceito tem asas e que esse é um estigma que ninguém merece ter. A verdade é que gente tem direito garantido em lei. Anjo não. Ainda não existem direitos celestiais, mas existem direitos humanos e eles estão aí para serem respeitados, perseguidos e transformados pelos homens e mulheres a quem se dirigem.
Retirar a humanidade das pessoas com deficiência é uma prática comum, antiga e cruel - ainda que seja para chamá-las de anjo. Se fizermos uma análise histórica, mesmo que precária, perceberemos que o direito de ser visto como gente é negado às pessoas com deficiência desde os primórdios. Nas primeiras comunidades tribais, pessoas nascidas com algum tipo de deficiência física eram exterminadas ao nascimento ou ao longo da vida, ou ainda, eram consideradas exóticas, nas palavras de Rubens Valtecides Alves[1]. Outras vezes eram considerados como enviadas pelos deuses para beneficiar a tribo. No Egito Antigo a deficiência era considerada um castigo e estava ligada à presença de espíritos malignos. A nobreza tinha acesso a tratamentos, mas os pobres eram sujeitos a servir como atração circense ou eram usados pelos sacerdotes para estudos e para treinamento cirúrgico.
Na Roma Antiga, segundo Sandro Nahmias Melo[2], a Lei das XII Tábuas determinava que “o filho nascido monstruoso seja morto imediatamente.”
No Livro do Levítico[3], cuja autoria é atribuída a Moisés (Levítico 21, 16-21), provavelmente entre 1440 e 1400 a.C., a deficiência já era tida como fator impeditivo do caráter humano. À pessoa com deficiência, era negado inclusive o direito de oferecer sacrifícios a Deus:
Falou mais o Senhor a Moisés, dizendo:
Fala a Arão, dizendo: Ninguém da tua descendência, nas suas gerações, em que houver algum defeito, se chegará a oferecer o pão do seu Deus.
Pois nenhum homem em quem houver alguma deformidade se chegará; como homem cego, ou coxo, ou de nariz chato, ou de membros demasiadamente compridos,
Ou homem que tiver quebrado o pé, ou a mão quebrada,
Ou corcunda, ou anão, ou que tiver defeito no olho, ou sarna, ou impigem, ou que tiver testículo mutilado.
Nenhum homem da descendência de Arão, o sacerdote, em quem houver alguma deformidade, se chegará para oferecer as ofertas queimadas do Senhor; defeito nele há; não se chegará para oferecer o pão do seu Deus.
Eu sei... pode soar como exagero, mas diante de todas essas informações, você ainda acha que deve continuar chamando seu filho ou aquela criança, jovem ou adulto com deficiência de anjo, ou pior, tratando-o como tal???
Anjo não precisa estudar, porque não tem mais nada para aprender; anjo também não prescinde de cuidados médicos e terapêuticos, porque já esta nos céus; anjo não necessita de transporte público de qualidade porque tem asas e voa; anjo também não carece de cultura, porque já está pré-abastecido de tudo que há de melhor; anjo sequer goza do direito à sexualidade e à prática religiosa; anjo também não briga por seus direitos, não é capaz da resistência, da escolha e da luta.
Assim, joguemos fora nossos mitos que não são capazes de transformar e apenas consolidam práticas preconceituosas e cruéis que perpetuam a negativa de humanidade às pessoas com deficiência.
Dados do IBGE[4] revelam que todos os meses cerca de 8.000 brasileiros adquirem ao longo da vida algum tipo de deficiência. Se você for o próximo, deseja ser tratado como anjo ou como cidadão?
Adriana Monteiro da Silva
[1]ALVES, Rubens Valtecides. Deficiente físico: novas proteções da dimensão ao trabalhador. São Paulo: LTr, 1992, p. 18.
[2]MELO, Sandro Nahmias. O Direito ao trabalho da pessoa portadora de deficiência: ação afirmativa. São Paulo: LTr, 2004, p. 28.
[3] Bíblia on line Ave Maria. http://www.claret.com.br/biblia/

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