Das muitas coisas da minha infância, estão entre as boas lembranças as noites estreladas no bairro do Encantado no Rio de Janeiro. Eu e meu irmão ficávamos pendurados no muro da casa da minha tia tentando contar quantas estrelas brilhavam no céu. Quando perguntávamos pra minha mãe sobre todo aquele brilho, ela dizia que as estrelas eram gente que tinha ido morar no céu. Nossa fantasia voava nessa historinha... A infância passou, mas tem hora que ainda me sinto a mesma menina boba que ficava pendurada lá naquele muro, tentando entender aquele céu todo estrelado.
Em 2007, quando a Marília Castelo Branco, eu e mais alguns malucos resolvemos fundar a Associação Síndrome do Amor, minha filha já tinha 6 anos e eu pensava que precisava ajudar outras pessoas para que seus filhos e filhas também pudessem chegar aos 6 anos ou até onde Deus permitisse.
Minha querida Marília já tinha devolvido o Thales - seu filho - para Deus e me ensinou a lidar um pouco melhor com essa história de "estrelinhas". Mas a verdade é que nossas crianças se vão muito cedo e nos deixam órfãos e órfãs de filhos.
Sei que todos nós temos uma missão e que temos o nosso tempo e hora para cumpri-la, mas é preciso que se lute intensamente pela vida e não é isso que temos testemunhado.
O mercantilismo que assolou a saúde no Brasil tem custado a vida de nossos filhos e filhas.
Pessoas com deficiência requerem cuidados especiais, diferentes da maioria da população: neurologistas, psiquiatras, cardiologistas, fisioterapeutas, fonoterapeutas, terapeutas ocupacionais, psicólogos, psicopedagogos são imprescindíveis para a maioria destas pessoas. Existem profissionais suficientes? Quanto custam? Quem pode custeá-los? Quem cuida de quem cuida?
Hoje mais uma estrelinha está brilhando no céu do Encantado. Não gostamos de falar de luto. Sim, o coração aperta e a vida parece pedir silêncio. Mas, não podemos parar. Outras vidas urgentes nos aguardam. E seguimos... do luto à luta, com a esperança de que nossa voz seja um dia ouvida.
Com amor para todos as mamães e papais das nossas estrelas.
