sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Impotência materna

Quando soube que minha filha era uma criança com síndrome de angelman foi um alívio... O luto eu vivi antes, quando percebi que algo estava errado. Ter um diagnóstico foi um alento, uma canção de ninar para quem não conseguia mais dormir pensando: "- O que minha filha tem?"
Nesta altura, eu já sabia o que desejava para ela: uma vida sem limites. E a menina não tinha sossego... era fisioterapia, equoterapia, musicoterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicomotricidade e tudo mais que me desse esperanças de alguma qualidade de vida para minha pequena. 
Olho pra trás e sei que fiz tudo que eu podia e também o que não podia. Se adiantou? Sim. Ela anda, criou um repertório vasto de comunicação, consegue realizar as tarefas de vida diária com ajuda e está desenvolvendo muito bem. 
Mas, sua adolescência chegou rápido demais e sem me perguntar se eu estava pronta para vê-la crescer. Minha filha tem um espectro autístico bem definido e que tem desafiado os meus neurônios na tentativa de entendê-la. Por vezes, acho que ela é mimada, voluntariosa e que só faz o que quer. Por vezes, acho que sou dura demais e não deixo que ela se expresse e que manifeste o que ela realmente deseja. Portanto, sequer consigo perceber quem sou nesse papel de mãe (a liberal ou a durona?). Não consigo saber se ela está feliz. Isso me mata. 
Já passei por muitas fases difíceis com a Ana Luísa... tempos em que eu achei que ela não iria mais andar, tempos em que ela tinha tanta pneumonia que eu achava que uma hora o pulmão não aguentaria, tempos em que eu achei que ela só conseguiria se alimentar por sonda... Entretanto, eu sempre soube o que fazer e agora eu confesso que não sei mais. 
É interessante. Mãe acha que é Deus. Até crê, reza, pede, ajoelha e chora suplicando que o Pai olhe por sua cria, mas no fundo, ela acha que é capaz de resolver tudo (ou será que essa soberba é só minha?). Mas, tem uma hora - que pode chegar mais cedo ou mais tarde - em que não somos capazes de nada. 
A impotência diante de um filho é algo infinitamente dolorido. Como é difícil entrar no seu mundo e descobrir o que ela anseia, o que pensa, o que sonha. 
Meu coração se acalma quando penso no meu outro filho. João fala "pelos cotovelos", gosta de conversar, confia em mim e divide seus segredos comigo.   Mesmo assim, não sou capaz de saber tudo que se passa dentro da sua cabeça e de seu coração, porque somos seres humanos complexos demais para sermos plenamente entendidos pelo outro. 
E assim, seguimos... impotentes diante das dores de nossos filhos. Nos resta despir da soberba e acreditar que há dores que mãe nenhuma será capaz de curar.

Para todas as mães soberbas como eu. 
Beijos.
Adriana Monteiro da Silva

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Por uma vida sem limites...

Feche seus olhos e não abra. Tente colocar sua roupa, buscar sua carteira, calçar seus sapatos e descer à padaria de olhos fechados. Abra a porta de casa, localize o espaço que você tem para transitar entre os carros, atravesse a rua... cuidado! Não tropece no meio fio! Levante seus pés! Continue. Tem uma escada ali. Suba. Chegou. É a padaria. Escolha o pão. Coloque no saquinho. Pague. Conte seu troco. Pronto. É só descer a escada de volta, tomar cuidado com o meio fio e com a travessia da rua e chegar em casa de novo.  



Conseguiu imaginar as barreiras que uma pessoa com deficiência visual enfrenta para fazer algo tão banal pra você e para mim?

Imagine fazer o mesmo percurso numa cadeira de rodas. 
Pense ainda que você é surdo-cego...
Imagine-se autista, desejando comer pão e não conseguindo sequer expressar seus desejos. 

Não! Não é para ter pena! É para ter respeito! E é para admirar sim!!! 

De acordo com o Censo 2010, estima-se que 45,6 milhões de pessoas possuem algum tipo de deficiência no Brasil. Equivale dizer que 1/5 da população brasileira precisa realizar este trajeto e percursos muito maiores todos os dias sem um mínimo de acessibilidade e com um único desejo: a vida inteira e plena! 

O Dia Nacional da Luta da Pessoa com Deficiência foi instituído pelo movimento social em 1982 e formalizado pela Lei 11.133 de 14 de julho de 2005, mas a verdade é que não tem um só dia que essa gente não lute. E lute muito!

A Convenção Internacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência não é um norte, como vejo magistrados, promotores e advogados afirmando por aí. A Convenção é lei internacional e que, a partir de sua ratificação no Brasil, em 2008, passou a integrar o texto constitucional, conforme a Emenda nº 45 da CF. Lei Máxima e, portanto, inquestionável!!!!

Martin Luther King Jr. uma vez afirmou que tudo que é feito no mundo é feito pela esperança. Gosto dessa frase. Aliás, eu gosto de tudo que é utópico. Sem utopia, nossos passos ficam pequenos demais. Desejo morrer sonhando e fazendo algo para mudar um pouquinho esse mundo. 

Universalizar direitos num país tão desigual não pode ser responsabilidade única do Estado e de quem detém o poder. Acessibilidade é algo que vai muito além de uma rampa e de uma porta mais larga. O mundo será acessível quando cada um de nós arregaçarmos nossas mentes e corpos para nos colocarmos no lugar do outro. Um mundo acessível é um mundo onde a saúde e a vida são consideradas um bem maior, onde a escola é para todos, onde o cego tem livros em braile, onde o surdo conversa em libras e é entendido, onde todos tem suas limitações e habilidades respeitadas e valorizadas. 

Tornar o mundo acessível é tarefa de todos nós. 

Um dia eu disse isso e uma amiga me falou: "-Mas, eu não posso fazer nada. Sou só uma dona-de-casa." Eu respondi: "Comece abraçando a minha filha quando ela abraçar você." Não dói, não mata... 

Você é síndico? Minimize as barreiras atitudinais do edifício onde você mora. 
Você é empresário? Será que seu estabelecimento está pronto para todos? Quantos clientes você pode ganhar se torná-lo mais acessível?
Você é professor? Será que você está potencializando as habilidades dos seus alunos ou maximizando suas limitações?
Você é médico? Já procurou entender como pode atender melhor um paciente com deficiência? 

Todo mundo pode fazer alguma coisa. É só querer! 
Ame! O fim de todos nós é o mesmo. Somos todos iguais e nossos corpos apodrecerão todos debaixo da terra. 
A diferença está no que você faz ao longo da sua vida. Só!

21 de setembro: Dia Nacional da Luta da Pessoa com Deficiência.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Quando o preconceito tem asas...


Ana Luísa
Foto de Lorena Lopes


Há anos escuto chamarem minha filha de anjo. Confesso que por muito tempo gostei. Toda mãe acha seu filho um anjo e eu não sou diferente. Acho meus filhos as crianças mais lindas e bem educadas do mundo e embora ache muito clichê dizer, afirmo pela milésima vez que eles são presentes dos céus em minha vida.
Mas, há algum tempo percebo e tenho certeza que o preconceito tem asas e que esse é um estigma que ninguém merece ter. A verdade é que gente tem direito garantido em lei. Anjo não. Ainda não existem direitos celestiais, mas existem direitos humanos e eles estão aí para serem respeitados, perseguidos e transformados pelos homens e mulheres a quem se dirigem. 
Retirar a humanidade das pessoas com deficiência é uma prática comum, antiga e cruel - ainda que seja para chamá-las de anjo. Se fizermos uma análise histórica, mesmo que precária, perceberemos que o direito de ser visto como gente é negado às pessoas com deficiência desde os primórdios. Nas primeiras comunidades tribais, pessoas nascidas com algum tipo de deficiência física eram exterminadas ao nascimento ou ao longo da vida, ou ainda, eram consideradas exóticas, nas palavras de Rubens Valtecides Alves[1]Outras vezes eram considerados como enviadas pelos deuses para beneficiar a tribo. No Egito Antigo a deficiência era considerada um castigo e estava ligada à presença de espíritos malignos. A nobreza tinha acesso a tratamentos, mas os pobres eram sujeitos a servir como atração circense ou eram usados pelos sacerdotes para estudos e para treinamento cirúrgico.
Na Roma Antiga, segundo Sandro Nahmias Melo[2], a Lei das XII Tábuas determinava que “o filho nascido monstruoso seja morto imediatamente.” 
No Livro do Levítico[3], cuja autoria é atribuída a Moisés (Levítico 21, 16-21), provavelmente entre 1440 e 1400 a.C., a deficiência já era tida como fator impeditivo do caráter humano. À pessoa com deficiência, era negado inclusive o direito de oferecer sacrifícios a Deus:

Falou mais o Senhor a Moisés, dizendo:
Fala a Arão, dizendo: Ninguém da tua descendência, nas suas gerações, em que houver algum defeito, se chegará a oferecer o pão do seu Deus.
Pois nenhum homem em quem houver alguma deformidade se chegará; como homem cego, ou coxo, ou de nariz chato, ou de membros demasiadamente compridos,
Ou homem que tiver quebrado o pé, ou a mão quebrada,
Ou corcunda, ou anão, ou que tiver defeito no olho, ou sarna, ou impigem, ou que tiver testículo mutilado.
Nenhum homem da descendência de Arão, o sacerdote, em quem houver alguma deformidade, se chegará para oferecer as ofertas queimadas do Senhor; defeito nele há; não se chegará para oferecer o pão do seu Deus

Eu sei... pode soar como exagero, mas diante de todas essas informações, você ainda acha que deve continuar chamando seu filho ou aquela criança, jovem ou adulto com deficiência de anjo, ou pior, tratando-o como tal???
Anjo não precisa estudar, porque não tem mais nada para aprender; anjo também não prescinde de cuidados médicos e terapêuticos, porque já esta nos céus; anjo não necessita de transporte público de qualidade porque tem asas e voa; anjo também não carece de cultura, porque já está pré-abastecido de tudo que há de melhor; anjo sequer goza do direito à sexualidade e à prática religiosa; anjo também não briga por seus direitos, não é capaz da resistência, da escolha e da luta.
Assim, joguemos fora nossos mitos que não são capazes de transformar e apenas consolidam práticas preconceituosas e cruéis que perpetuam a negativa de humanidade às pessoas com deficiência.
Dados do IBGE[4] revelam que todos os meses cerca de 8.000 brasileiros adquirem ao longo da vida algum tipo de deficiência. Se você for o próximo, deseja ser tratado como anjo ou como cidadão?

Adriana Monteiro da Silva


[1]ALVES, Rubens Valtecides. Deficiente físico: novas proteções da dimensão ao trabalhador. São Paulo: LTr, 1992, p. 18.

[2]MELO, Sandro Nahmias. O Direito ao trabalho da pessoa portadora de deficiência: ação afirmativa. São Paulo: LTr, 2004, p. 28.

[3] Bíblia on line Ave Maria.  http://www.claret.com.br/biblia/

terça-feira, 14 de junho de 2011

Em sua ausência

"- Não, não temos ninguém para atendê-la."
"- Como assim?" - eu disse. 
"- Nossos assistentes sociais estão participando de um curso na UNB, juntamente com todos os técnicos, desde segunda-feira. Se quiserem, podem voltar amanhã. Talvez tenha alguém para atender."


Segunda-feira, dia 13.06.2011, dia de Santo Antônio, padroeiro dos pobres e oprimidos, dos que amam e dos que desejam ser amados... Saí do trabalho e fui me encontrar com Sabrina na estação do metrô. Sabrina tem uma doença degenerativa conhecida como Ataxia de Friedreich e, desde os 15 anos - hoje tem 26 - enfrenta um processo de perda de movimentos e coordenação motora, que foi iniciado nos membros inferiores e hoje atinge praticamente todo seu corpo, permanecendo intacta sua capacidade intelectual.

Nosso encontro não era à toa. Há algum tempo, Sabrina deseja e precisa de alguma atividade terapêutica e laboral. Por isso, combinamos de irmos juntas ao CRAS - Centro de Referência de Assistência Social de Taguatinga, para que ela pudesse preencher sua inscrição na fila de espera da APAED - Associação de Pais e Amigos de Excepcionais e Deficientes.

Sabrina não tem força motora suficiente para dirigir sua própria cadeira, levantar-se ou sentar-se. Precisa de ajuda para todos os movimentos. Sair de casa é um desafio. Sabrina saiu da Samambaia, foi até o metrô de Águas Claras, onde eu a peguei e levei para o CRAS de Taguatinga, para ouvir que não tinha nenhum funcionário para atendê-la. 


Mas Sabrina não foi a única. A atendente nos sugeriu que voltássemos só na segunda, porque muitas pessoas já tinham procurado atendimento sem êxito e voltariam no dia seguinte. O público alvo do CRAS são pessoas em situação de alta vulnerabilidade: pessoas com deficiência, desabrigados, crianças em situação de risco, mulheres violentadas e, obviamente, em sua maioria, pessoas de baixa renda, que contam apenas com este serviço para ter o seu mínimo de dignidade resguardada. 
"Em sua ausência", de Barthi Kher, 2010.
Foto: Adriana Monteiro da Silva


O Ministério do Desenvolvimento Social define o CRAS como "o ponto focal de acesso e promoção dos direitos socioassistenciais no território" e é por isso que o CRAS tem obrigatoriedade, de acordo com o Programa de Atenção Integral à Família, de horário de funcionamento mínimo de 8 horas e no referido Programa está assim definido: "Somente é considerado que o CRAS está em funcionamento por 8 horas se houver a presença da equipe de referência completa durante este período."

Saí de lá lembrando de uma imagem que vi na exposição da Índia no CCBB de Brasília. "Em sua ausência" é uma instalação com cadeiras de madeira vazias e alguns suntuosos saris. O sari é um traje típico das mulheres indianas que envolve todo corpo. Para confeccioná-los são utilizados cerca de 6 metros de pano. Seus tecidos são suntuosos e são um misto cruel e estapafúrdio de opressão e sensualidade. As cadeiras vazias respresentam a invisibilidade da mulher na sociedade indiana. 

Fiquei, então, pensando em nossos e nossas invisíveis e nos nossos saris - não menos suntuosos e não menos opressores... a violência da invisibilidade... silenciosa, mortificante e sem vestígios de sangue aparentes.  

Até quando?

Adriana Monteiro da Silva


terça-feira, 19 de abril de 2011

Todo dia era dia de índio...


Atualmente, é um tal do "dia de". Todo mundo quer ter um dia. Em se tratando de minorias, essa foi a forma encontrada pelos movimentos sociais para homenagear e lembrar destas pessoas e da luta pelos seus direitos. Dia da Consciência Negra, Dia da Mulher, Dia do Indio, Dia da Luta da Pessoa com Deficiência, Dia mundial de conscientização do autismo, Dia Internacional da Síndrome de Down. Dias encontrados para pontuar conceitos, para falar de, para conscientizar, para dedicar a estes grupos mundialmente ainda excluídos e segregados.


Mas a verdade é que lugar de preto ainda é na favela (nas 5 classes de 3º ano da escola de meu filho não existe NENHUMA criança negra); mulher quando é estuprada ainda leva a culpa (vejam o caso das meninas de 12 anos no STJ); índio é tido como vagabundo que quer morar de favor na terra alheia (sendo que eles eram os donos de toda essa terra que hoje habitamos); pessoas com deficiência são um fardo (nunca me esqueço do dia em que um de nossos bebês da Associação faleceu e alguém disse: "Melhor assim! Agora esse pai vai viver!"); autistas são pessoas que moram em seu próprio mundo e não se comunicam com ninguém (esse é pra matar!) e síndrome de down é "bonitinho" e "olha, já tá até entrando na faculdade".

Enfim, um bando de datas que pontuam, ajudam, tem seu valor sim, mas não satisfazem!
Agora, o pessoal está se movimentando pra que a síndrome de angelman também tenha um dia! De boa: pra quê???? Eu sei, é a síndrome da minha filha, seria legal se desse no noticiário à noite e se a síndrome de angelman ficasse mais popular. Putz! Já pensou??? Eu chegar num médico na emergência, falar em angelman e ele conhecer??? Fantástico!

O que me preocupa é que temos mais de 6.000 síndromes e um calendário de 365 dias. Não quero que se resolva o meu problema. Eu quero que todo mundo tenha oportunidade. Eu quero que todo mundo tenha dignidade. Eu quero que todo mundo seja respeitado. Eu quero que todo mundo tenha direito à vida, à saúde, à educação, ao lazer e até a uma morte digna. Por que não??? É utopia??? Que seja!

Quero que a cadeira de genética seja melhor aplicada na faculdade de medicina; quero que os médicos sejam mais humanizados e se preocupem menos em saber e mais em acolher; quero que as associações de pessoas com deficiência saibam conversar, se ouvir e dialogar; quero que as famílias de pessoas com deficiência permitam o protagonismo de seus filhos e quero também que estes filhos se sintam autores de sua história; quero que sejamos menos coitados e mais amados; quero que haja respeito real às diferenças e que paremos de comemorar a vida dessas pessoas só quando elas se parecem um pouco mais conosco; quero que parem de falar em inclusão o tempo todo, como se fosse isso uma bandeira que a gente levanta e tá tudo certo...

Enfim, perdoem a minha aparente implicância com os tais dias. Não é isso... Se alguém lutar pelo dia da síndrome de angelman, eu apoiarei, divulgarei e estarei permanentemente ao lado. Mas quero que pensemos  melhor no que estamos fazendo e no que estamos esperando disso. Existem mais 6.000 síndromes. Qual será o dia delas???

Adriana Monteiro