Descriminalização do aborto para grávidas de anencéfalos. Eu não consigo ver justificativa plausível em se criminalizar uma mulher que aborta. A não ser que criminalizemos também o pai. Sim, há um feto. Há uma mãe e um pai. Mas a pena é restrita à mulher. O crime é dela, a assassina é ela, a sem coração é ela... Ok, não é essa a discussão que interessa agora.
O que interessa é que não está se fazendo uma discussão sobre aborto. Está se fazendo uma discussão restrita ao aborto de fetos anencéfalos.
A verdade é que pouco se sabe sobre anencefalia e pouco se sabe sobre a maioria das alterações genéticas humanas. E, cada dia mais percebo, que continuaremos sem saber se não houver uma mudança imperiosa na forma em que os inúmeros tipos de deficiência são tratadas e encaradas socialmente.
A anencefalia não é o único caso em que mulheres desesperadas procuram o Judiciário para a prática de aborto. Ouvir de um médico que a deficiência de um filho é incompatível com a vida é algo que só sabe quem já passou.
Primeiramente, preciso dizer que não tenho nenhuma noção da dor de uma mulher que descobre que carrega em seu ventre uma criança com uma síndrome genética severa e que os médicos - em geral - dizem que não irá sobreviver... Eu só tive diagnóstico da síndrome da minha filha quando ela já estava com 1 ano e 4 meses. Minha dor foi de outra ordem...
O que leva uma mulher grávida a procurar o Poder Judiciário para pedir autorização para praticar um aborto de uma criança com deficiência? Desespero, completa falta de apoio, medo do desconhecido e de não suportar carregar seu filho nos braços por um curto espaço de tempo? Com certeza, tudo isso e muito mais.
Minha filha me deu alguns presentes. Um deles é que eu ouço histórias e ajudo outras mães há alguns anos. Marília Castelo Branco, minha Lila, amiga e confidente foi uma destas mães que poderia ter abortado. Luciana Fonte, Alessandra Bastos e tantas outras também. São casos em que a justiça brasileira, em geral, autoriza o aborto. Estas mulheres tomaram o caminho contrário. Conseguiriam optar por seu direito à maternidade, à vida e - por que não? - à morte.
Às vezes, a morte chega cedo demais... e só a mãe que já enterrou um filho conhece esta dor... Mas, acredito eu, que seja reconfortante pensar, que fomos capazes do amor, que demos e recebemos tudo o que podíamos, ainda que por pouco tempo, ainda que por um dia, que por uma hora, beijamos, amamos, tocamos e sentimos aquilo que a vida nos permitiu sentir.
Sem vida, não há toque, não há beijo, não há afago.
Muitas de nossas crianças - que não possuem prognóstico diverso dos anencéfalos - estão vivas. Muitas! Outras não sobreviveram. Mas essa não é a vida??? Desde que Ana Luísa nasceu os médicos me preparam para a sua morte. E é horrível ouvir isso. A ordem da vida é que os filhos durem mais que seus pais. Mas, que bom se todos nós nos preparássemos porque acho que esta é mesmo a única certeza que temos nessa vida. Não somos eternos. Temos missões distintas, que exigem tempo distinto.
Muitas de nossas crianças - que não possuem prognóstico diverso dos anencéfalos - estão vivas. Muitas! Outras não sobreviveram. Mas essa não é a vida??? Desde que Ana Luísa nasceu os médicos me preparam para a sua morte. E é horrível ouvir isso. A ordem da vida é que os filhos durem mais que seus pais. Mas, que bom se todos nós nos preparássemos porque acho que esta é mesmo a única certeza que temos nessa vida. Não somos eternos. Temos missões distintas, que exigem tempo distinto.
É verdade, é uma vida não sonhada. Ninguém fala: "- Pai querido, que meu filho tenha uma síndrome!" Não! Nós sonhamos com saúde, com prosperidade, com felicidade... Não desejamos morte, convulsões, dificuldades locomotoras... Ninguém sonha com isso. Mas aí, a vida te dá isso! Mas isso não vem só! Não! Isso vem acompanhado de tanta coisa boa, que eu poderia passar o dia aqui escrevendo e eu não conseguiria relatar. É um amor nunca sentido, é uma alegria em cada conquista, é um desafio entusiasta por aprendermos uma forma nova de comunicação, é uma vida que precisa ser olhada com olhos do alto. Olhos que transpassem essa vida. E nesta vida tão diferente, tão desigual, descobrimos alegrias também inusitadas, sorrisos e toques jamais esperados e, como não poderia deixar de ser, haverão as dores... mas quem não as tem???
Mas como já disse, continuo afirmando que me acho completamente incompetente para fazer juízo de quem quer que seja quando a questão é aborto. Principalmente no Brasil. Crianças com síndromes genéticas severas exigem dedicação praticamente exclusiva. Em sua maioria, este cuidado recai sobre as mulheres. E neste caso, trabalhar torna-se quase que incompatível. E o que fazer??? Os pais, em geral, somem. Sim! Os homens, em geral, tem mais dificuldade de lidar com a dor. Eles não suportam. Acredito que podemos falar que 80% (sem medo de errar) das famílias de crianças com deficiência são chefiadas por suas mães. Pensão alimentícia neste país é uma palhaçada... Fora os pais conscientes, elas são estipuladas entre 10 e 30% (mas essa última é uma raridade) dos vencimentos do pai. Em geral, são uma piada de mau gosto! E eu gostaria de saber quanto que um homem casado gasta com seu filho. Tenho certeza que é bem mais... O benefício de prestação continuada só é concedido quando há prova de miserabilidade. Ou seja, é muita hipocrisia dizer que uma mulher que não tem com quem contar - nem com o Estado - ainda possa ser criminalizada por isso. Acredito piamente que dormir após a prática do ato de aborto - que não deixa de ser uma violência contra si própria - seja algo muito difícil. A pena já está aí... e ela é cruel!
Esta não é uma defesa do aborto. Acho que temos tantas formas responsáveis de evitar uma gravidez. Nunca vou defendê-lo. Mas acho que criminalizá-lo não ajuda em nada.
Precisamos repensar formas de apoio para estas mulheres, famílias e crianças. Quem cuidará destas mães?? Quem orientará estes pais??? Quem acolherá estas crianças??? Quem as amará verdadeiramente??? Convido a cada um que é realmente contra a prática do aborto a tomar uma iniciativa. Não levantando bandeira. Bandeira todo mundo levanta. É preciso repensar de que formas o Brasil tem tratado seus filhos com deficiência e de que formas continuaremos a tratá-los.
Ouvi esta semana inúmeras vezes a frase: "Chega de torturar as mulheres". Me perdoem, mas se acharmos que a vida exige perfeição, em breve, estaremos abortando também as crianças que possuem genes de doenças degenerativas e muitas outras. A eugenia é aceita entre nós. Sim, ela é. E silenciosamente ganha rumos cada vez maiores. Até onde iremos na busca pela felicidade? Ela também aparece entre os espinhos, mas só a vê quem enxerga com a alma.
Por menos julgamentos e mais amor!
Adriana Monteiro da Silva
Esta não é uma defesa do aborto. Acho que temos tantas formas responsáveis de evitar uma gravidez. Nunca vou defendê-lo. Mas acho que criminalizá-lo não ajuda em nada.
Precisamos repensar formas de apoio para estas mulheres, famílias e crianças. Quem cuidará destas mães?? Quem orientará estes pais??? Quem acolherá estas crianças??? Quem as amará verdadeiramente??? Convido a cada um que é realmente contra a prática do aborto a tomar uma iniciativa. Não levantando bandeira. Bandeira todo mundo levanta. É preciso repensar de que formas o Brasil tem tratado seus filhos com deficiência e de que formas continuaremos a tratá-los.
Ouvi esta semana inúmeras vezes a frase: "Chega de torturar as mulheres". Me perdoem, mas se acharmos que a vida exige perfeição, em breve, estaremos abortando também as crianças que possuem genes de doenças degenerativas e muitas outras. A eugenia é aceita entre nós. Sim, ela é. E silenciosamente ganha rumos cada vez maiores. Até onde iremos na busca pela felicidade? Ela também aparece entre os espinhos, mas só a vê quem enxerga com a alma.
Por menos julgamentos e mais amor!
Adriana Monteiro da Silva

Lindo o seu depoimento. Só acho que saber q o filho vai morrer assim q nascer, aos 3 meses de gestação, e ser obrigada a levar a gestação até o final, é uma tortura sim. Vc ter que se preocupar com o caixão ao invés do berço... tenho uma amiga q recebeu esse triste diagnóstico na semana passada, com 18 semanas de gestação. Um bebê planejado e esperado... não é apenas uma deficiência, é pena de morte mesmo! Ou ela vai perder, ou vai nascer e viver horas, no máximo, pois só tem um rim, cérebro bem pequeno, pulmões minúsculos... é muito, muito triste... talvez fosse melhor nem saber... mas daí teria o quarto pronto para o filho q não vai habitá-lo.. tudo muito triste. E vc escreve muito bem, parabéns!
ResponderExcluirOlá Adriana Mendes! Obrigada por suas considerações. O grande problema é que no Brasil diagnósticos ainda são um grande problema. Em crianças nascidas são imprecisos (passei por 16 neurologistas e 4 geneticistas nos melhores hospitais do país para conseguir um diagnóstico da minha filha), em vidas uterinas são ainda mais sujeitos a erro. Enfim, sua amiga recebeu um diagnóstico que tem grandes possibilidades de erro. Mas, como eu já disse, acho que o direito dela de escolha deve ser resguardado. Minha tristeza é saber que também estamos privadas de direito à informação e que muitas vidas são ceifadas em diagnósticos equivocados... Tudo de melhor para vc e tomara que sua amiga consiga encontrar alegria nesta vida diferente que pulsa dentro dela... Se ela precisar de apoio psicológico, encaminhe-a para a Associação Síndrome do Amor. Lá não julgamos ninguém, só apoiamos! bjs
ResponderExcluirTambém não vivi isso já que fiquei sabendo da síndrome do Thales qdo ele nasceu. Deve ser torturante, enlouquecedor, assim como saber que um filho adolescente tem leucemia, ou usa craque, ou que sua mãe tem Alzeimer, ou sua filha linda, na flor da idade teve uma crise de asma e virou um "vegetal". E aí, a gente os mata?
ResponderExcluirMais fácil eliminar o sofrimento do que apoiar outro ser humano...Fácil e triste.
A coisa toda é mais grave e ampla do que aparenta. Tomar decisões que cabem à Natureza é indício de desastre. bjs Marília