quinta-feira, 3 de maio de 2012

Marina, avante!




Preconceito é dor que só conhece quem vive. 

Marina Serafim dos Reis a conheceu. 

O médico Heverton Otacílio Campos Menezes, conceituadíssimo em Brasília, cuja clínica funciona no bairro mais nobre da capital, se achou no direito de agredi-la verbalmente na frente de muitas pessoas no último domingo. Ao tentar furar a fila do cinema, o médico foi repreendido por Marina, funcionária do local, a quem respondeu: "Mas é muito grossa mesmo, por isso é dessa cor! Você está no lugar errado. Seu lugar não é aqui, lidando com gente, e sim com animais. Você deveria estar morando na África, cuidando de orangotangos."

Com o médico, aprendemos algumas coisas: 1) grossura escurece - quem tem inveja da minha cor, se liga, bronzeamento artificial já era; 2) lugar de preto é na lida com animais; 3) os orangotangos devem ter migrado em massa da Indonésia para a África.

Aprendemos também que cultura e educação nem sempre são suficientes para mudar o percurso de longos anos de uma história em que negros não eram considerados humanos, e como não humanos, tiveram negado seu direito à vida, à liberdade, à educação, à saúde, ao trabalho digno e tantos outros que ainda lhes são tolhidos; aprendemos que tem gente que ainda acha que ter melanina a mais ou a menos nos faz melhores ou piores; aprendemos que tem gente que fala o que pensa e faz o que bem entende sem medo, porque sabe que a lei e a justiça não são cegas e dançam conforme o bolso do pagante; aprendemos que racismo pode virar injúria facilmente; aprendemos que brasileiro não aceita que - queira ele ou não - se nasceu aqui neste País, em sua árvore genealógica existe ao menos um antecedente negro, sem nenhuma sombra de dúvida. 

Ao médico, eu diria que amo as pessoas e os animais e que lhe considero completamente incompetente para lidar com qualquer uma das categorias. 

Força, Marina! Avante! 


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